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Lucas Lima abre o jogo
lucas lima | 27 abril 2010
Entrevista publicada na edição 39 do Jornal GraphiQ, do meu amigo e quadrinhista Mario Latino.

A infância e a família
Nasci em Araraquara (SP) em 1978, tenho dois irmãos mais velhos (7 anos de diferença), sou o caçula. Meu pai é dono de uma das farmácias mais antigas da cidade, quando era pequeno trabalhei com ele, fiz entrega de remédios, trabalhei no caixa a apliquei muita injeção. Anos atrás (acho que mais de vinte) minha mãe montou pra minha irmã uma loja de aviamentos que deu muito certo. Meu irmão aprendeu a cuidar da farmácia. Sobrou pra eu ser artista. Minha família sempre me incentivou a desenhar.
Por que essa escolha pelo humor e não pelos super-heróis, como é costumeiro?
Sempre gostei do humor. Quando ainda era uma criança de 12 anos, colaborei com um jornal em Araraquara, fazendo tiras dominicais, sempre bem humoradas. Fiz isso por dois anos, enquanto ainda formava muitos conceitos em minha cabeça. Esses dois anos foram importantíssimos para dar as bases para o trabalho que faço hoje. Adoro fazer tiras, adoro humor. No começo, quando já estava trabalhando profissionalmente, cheguei a fazer algumas tiras menos engraçadas, mais contestadoras e politizadas, mas percebi que o leitor de tiras procura descontração. Já existe um caderno inteiro dedicado à política nos jornais. Tento cumprir o meu papel, fazer o que eu, como leitor, aprecio: tiras engraçadas.
Meu começo como cartunista
Sempre desenhei, mas por um tempo deixei o lápis de lado. Foi mais ou menos quando conheci a música e decidi viajar. Virei “hippie” e viajei pelo Europa e pelo Brasil por três anos, conheci muitos lugares e muita gente, foram anos muito intensos. Depois resolvi aquietar. Voltei a São Paulo e trabalhei alguns anos numa editora especializada em automóveis. Fazia diagramação, tratamento de imagens, essas coisas. Até que, em 2003, decidi voltar minha carreira para minha grande paixão, os desenhos. Desde então atuo como cartunista. O estopim de tudo isso foi a revista O Caricato.
Conhecendo o mundo
Minha vida de mochileiro começou quando eu estava fazendo faculdade em São Paulo (Computação Gráfica –Anhembi Morumbi). Eu morava numa república com mais 4 amigos e num final de semana resolvi visitar meu primo em Campinas. Lá ele me contou que estava indo passar um tempo em Londres e me convidou a ir com ele. Topei na hora. Meus pais não estavam em condições de me ajudar com grana na época, emprestei o dinheiro da passagem de uma tia e fui. Cheguei em Londres sem grana, mas 4 dias após a chegada já estava trabalhando. Fiquei 5 meses por lá, aprendi o idioma, conheci a cultura, juntei um troco. Depois saí da Inglaterra, rodei a Europa e fui parar na Espanha, onde fiz o caminho de Santiago de Compostela. Quando cheguei, me apaixonei pela cidade e fiquei um tempo por lá, trabalhando numa revista. A essa altura eu já tinha pegado o “gosto” por viajar. Saí de lá, conheci mais países, dormi em rodoviárias, toquei violão nos Metrôs, fui atacado por skinheads, até voltar ao Brasil, onde viajei por mais 2 anos, levando somente minha mochila nas costas. Conheci todo tipo de malucos de estrada, rodei a Bahia num trailer, vivi mais 1 ano na Chapada Diamantina fazendo artesanato, como disse, foram anos muito intensos…
A experiência do Caricato
É uma das coisas que mais me orgulho de ter feito. O Caricato teve 5 números impressos e circulou nas bancas de Araraquara e Região em 2003 e 2004, era uma misto de MAD com Caros Amigos, tinha entrevistas, matérias e, claro, muitos desenhos. Nunca ganhei um centavo com a revista, mas fiz grandes amigos. Estou feliz por voltar com este projeto, que agora entra numa nova fase, com uma nova proposta e um novo formato. Será uma revista digital que poderá ser baixada gratuitamente na internet pelo site www.ocaricato.com.br. Como da primeira vez, O Caricato servirá de vitrine para consagrados artistas do traço e da escrita e, principalmente, será uma forma de divulgar novos talentos, um incentivo à produção de humor. Foi criando para a revista que me profissionalizei na produção de tiras. Foi onde estreei a série “Os Escoteiros”.
Os Escoteiros, meu primeiro trabalho como cartunista
Criar essa série foi muito fácil porque eu fui escoteiro. Eu escrevia minhas lembranças do tempo de movimento, mas achava a tira limitada, muitas pessoas não entendiam ou “sentiam” as piadas. Foi quando criei a série “Nicolau e seus Queridos Vizinhos”, queria histórias e situações em que todo mundo pudesse se identificar, foi uma série pensada para ser como ela é hoje.
Nicolau surgiu da necessidade de eu ter vários personagens à disposição, personagens de todas as idades, pra não perder nenhum tipo de piada ou tirada que surgisse. A seqüência leva o nome do garoto, mas não gira em torno dele, vou criando as situações à medida que vão surgindo em minha cabeça. Noto que, por um determinado período, acabo trabalhando mais com um personagem e menos com outro, é um ciclo. É dureza separar as tiras para as coletâneas, organizá-las é um desafio, um quebra-cabeça. Gosto muito das tiras da Dona Flora e do Potiguá.
Como é trabalhar com tiras de humor. Meu método de trabalho
Só quem faz tiras diárias sabe a angústia que se passa na busca pela grande sacada do dia. Com o tempo fica um pouco menos difícil, você já sabe qual é o lance de cada personagem, mas nunca é fácil, a coisa não ocorre por inspiração divina, é preciso buscar a piada. Eu penso num tema, tento extrair dele o absurdo, o inusitado. Escolho o personagem que vou trabalhar e, geralmente, quando já tenho o texto totalmente formatado na cabeça, começo a desenhar pelo último quadrinho, aquele que dá o desfecho da tira. Costumo pensar que uma boa tira é feita por alguns fatores: um bom desenho, uma tirada inteligente, uma situação inesperada, o absurdo. Quando se consegue um desses fatores, se tem uma boa tira, quando se consegue mais de um, se tem uma tira inesquecível, mas isso não acontece todo dia.
Como organizo meu dia a dia como cartunista
Não foi fácil conseguir uma organização mínima. Logo quando voltei a Araraquara e comecei a trabalhar com ilustrações trocava o dia pela noite, trabalhava toda madrugada e ia dormir 9 da manhã, acordava quatro da tarde. Hoje trabalho das 9 às 18hs. Além de autor, tento ser empresário de meus desenhos e não é fácil vender “papel colorido”, como diz um amigo meu. Como eu trabalho? Eu ando. Para buscar as idéias para os quadrinhos eu ando, não consigo ficar parado. Ando de um lado a outro em meu estúdio às vezes por horas até que a idéia chegue. Esta é minha maneira de pensar.
Autodidata
Tem um cara incrível aqui em Araraquara e que poucos conhecem: Kiko Lopes (www.nav-nucleodeartesvisuais.blogspot.com). Foi com ele que eu aprendi os primeiros passos no desenho. Fiz aulas também com o grande amigo Seabra (www.fotolog.terra.com.br/artseabra), que me influenciou e influencia até hoje. O resto eu aprendi como todo ilustrador: batalhando na prancheta, buscando soluções, aprendendo a observar. Como diz o Seabra: “Nada como a prática diária pra gente aprender sobre desenho”.
Os cartunistas que fazem a minha cabeça
Maurício de Sousa, Ziraldo, Laerte, Spacca, Seabra, Kiko Lopes, Fernando Gonsales, Cedraz, César Lobo, Negreiros, Duke, Dalcio, Gustavo Duarte, Mario Latino, Orlandeli, Benett, Sieber, Lelis, Watterson (Calvin e Haroldo), Jim Davis (Garfield). Gosto muito desse povo aí, muitos deles me influenciaram bastante, tanto no desenho/visual como no jeito de construir a piada. Devo muito a cada um.



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